Ao longo da História houve grandes discussões sobre uma suposta contradição dos termos unigênito, no grego μονογενὴς (Lê-se: monoguenês) (Jo 1:18) e e, ao mesmo tempo, o primogênito, do grego πρωτότοκος (Lê-se: prôtotokos), especialmente quando a Igreja precisou responder a interpretações heréticas que surgiram rapidamente nos primeiros séculos do Cristianismo: arianismo, gnosticismo, docetismo, etc.
Definição bíblica dos termos
a) “Unigênito” (μονογενὴς)
O termo aparece principalmente nos escritos joaninos (Jo 1:14, 18; 3:16; 1 Jo 4:9). No grego, monogenēs significa “único de sua espécie”, “único em natureza”, e não necessariamente “gerado no tempo”. O termo enfatiza a singularidade da relação do Filho com o Pai, apontando para sua divindade plena e igualdade de essência (homoousios). Denota o único filho de Deus ou aquele que, no sentido em que ele próprio é o filho de Deus, não tem irmãos, nem semelhantes.
O termo grego aparece nove vezes no NT, designando um descendente único e insubstituível. Seis usos destacam o Senhor Jesus Cristo (Jo 1:14, 18; 3:16, 18; Hb 11:17; 1 Jo 4:9 ); três descrevem um filho único em situação de extrema necessidade (Lc 7:12, filho da viúva de Naim; Lc 8:42, filha única de Jairo; Lc 9:38, filho único, lunático e possesso). O duplo padrão (cristológico e familiar) interliga a revelação divina à experiência humana comum, ressaltando a preciosidade de um filho insubstituível.
b) “Primogênito” (πρωτότοκος)
O termo aparece sobretudo em textos paulinos (Rm 8:9; Cl 1:15.18; Hb 1:6). No uso bíblico (especialmente no Antigo Testamento), “primogênito” frequentemente tem um sentido jurídico e funcional, não cronológico. Indica preeminência, autoridade e herança, como em Sl 89.27, onde Davi é chamado de “primogênito”, embora não fosse o primeiro filho nascido de Jessé.
A origem da controvérsia histórica
A tensão surgiu quando alguns passaram a interpretar a frase “primogênito de toda a criação (Cl 1:15)” como se Jesus fosse o primeiro ser criado, e não eterno. Essa leitura ganhou força com o arianismo (séc. IV), liderado por Ário, que afirmava: “Houve um tempo em que o Filho não existia”. Ário aceitava o título “primogênito”, mas negava o sentido singular de “unigênito” como igualdade de essência com o Pai.
Ário foi um presbítero cristão de Alexandria, no Egito, ativo no início do século IV (256 a 336 d.C.). Baseando suas doutrinas em interpretações equivocadas dos textos de Pv 8:22, Jo 14:28 e Cl 1:15, ele ensinava que:
- O Filho não é eterno como o Pai, nem tinha a mesma substância
- O Filho foi criado por Deus antes de todas as outras coisas
- O Filho é divino em sentido derivado e subordinado, não da mesma essência do Pai
- Jesus era o maior e mais exaltado dos seres criados
Como a Igreja se posicionou?
a) Concílio de Niceia (325 d.C.)
A Igreja afirmou que (texto completo abaixo):
- Jesus é “gerado, não criado”, portanto, procedente do Pai
- consubstancial (homoousios) ao Pai
Isso preserva o sentido de monogenēs como único Filho por natureza, portanto, eterno.
b) A harmonização dos termos
Os pais da Igreja (Atanásio, os Capadócios, Agostinho) explicaram que:
- Unigênito → refere-se à natureza divina do Filho
- Primogênito → refere-se à posição, missão e obra redentora do Filho, o primeiro dentre muitos irmãos
E mais…
O próprio Jesus reafirmou sua autoexistência e eternidade e sua unidade com o Pai (Jo 8:58; 10:30; 17:21). Em João 17:5: Jesus afirma que existia antes de todas as coisas criadas. Conceito repetido em Hebreus 1:1,2.
Em Colossenses 1, Paulo deixa claro que Cristo é “primogênito” porque criou todas as coisas (Cl 1:16), portanto, não faz parte da criação, afinal se Ele tem o poder de criar, é Criador, da mesma substância do Pai. Mas há outros sentidos bíblicos nos quais Jesus é o primogênito: Ele é o herdeiro de todas as coisas (Hb 1:2), cabeça da igreja (Cl 1:17,18) e primeiro na ressurreição (Cl 1:18).
Temos ainda a declaração monumental de 1 João 5:20: “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para que conheçamos ao Verdadeiro; e no que é Verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”.
Depois de vários embates a Igreja oficialmente denunciou o Arianismo como uma doutrina falsa, excomungou e condenou seu autor ao exílio para Ilíria. No entanto, o Arianismo nunca morreu, mas tem se dissimulado de várias formas diferentes. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, defendem uma posição parecida com a dos arianos em relação à natureza de Cristo. Na Tradução do Novo Mundo, que é a versão da Bíblia dos TJs* eles grafam o texto da seguinte maneira:

Outras seitas heréticas também tem um entendimento semelhante. É o caso dos mórmons, para os quais Cristo não é Eterno, mas foi criado, embora exaltado.
Donde concluímos que a discussão não surgiu por contradição bíblica, mas por interpretações equivocadas dos termos. A Igreja, ao longo dos concílios e da reflexão teológica, demonstrou que “unigênito” e “primogênito” expressam verdades distintas e harmônicas sobre a pessoa de Cristo: sua eternidade divina e sua supremacia redentora.
Texto final do Credo de Niceia
Creio em um Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai; pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo da Virgem Maria, e foi feito homem; e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos. Ele padeceu e foi sepultado; e no terceiro dia ressuscitou conforme as Escrituras; e subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim. E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. Creio na Igreja una, universal e apostólica, reconheço um só batismo para remissão dos pecados; e aguardo a ressurreição dos mortos e da vida do mundo vindouro.
Fonte do Credo: https://www.monergismo.com/textos/credos/credoniceno.htm
*Versão disponível no site oficial das TJs: https://www.jw.org/pt/biblioteca/biblia/biblia-de-estudo/livros/Jo%C3%A3o/1/





Uma resposta
Excelente pastor Daladier!
Deus abençoe este trabalho.