Um dos assuntos que mais causam controvérsia é qual a natureza das línguas faladas naquele dia. O texto é econômico, diz apenas que eram línguas de fogo, repartidas pela multidão (At 2:3). Até mesmo estudiosos pentecostais afirmam que eram línguas dos homens, sob o argumento de que soava inteligível para as 14 nações que os ouviam em primeira mão. Outros defendem que eram línguas estranhas, portanto, ininteligíveis. Ao que tudo indica esta segunda interpretação tem maior base na lógica e na hermenêutica. Mas, vamos por partes.

A discussão iniciou no cessacionismo. Cujo movimento defende que aquele episódio e suas correlações ficaram restritas à História. O termo língua (γλῶσσα, lê-se, glôssa) no Novo Testamento grego ocorre 50 vezes[1]. Falar em línguas é uma promessa de Jesus aos seus seguidores (Mc 16:17). Por que, pois, há tanta celeuma?

Penso que é ponto pacífico o que aconteceu à Igreja Primitiva, não restando maiores questionamentos quanto àquele episódio de Atos 2. A celeuma acontece quando muitos afirmam que dialetos e idiomas de quatorze nações teriam sido falados naquele conclave em Jerusalém. Ou seja, eram línguas comuns como as diversas que se podem ouvir em nossos grandes centros urbanos. Alguns alegam que era necessário falar em tais línguas para soarem compreensíveis ao ouvinte. Mas, há sérias incoerências lógicas em sustentar esta posição, vamos às principais:

1) Todos os judeus falavam ou conheciam o hebraico à época. O menino aos treze e a menina aos doze (alguns autores divergem quanto à idade exata) participavam de uma cerimônia que os definiria para sempre como integrantes do povo judeu: o bar mitzvá. Para provar sua identidade, ele ou ela, eram obrigados a recitar passagens inteiras decoradas da Torá. Aqueles que estavam na cidade de Jerusalém, exceto por autoridades, soldados e algumas poucas pessoas, eram todos judeus da Dispersão ou prosélitos, convertidos ao Judaísmo, que conheciam a língua da religião. Logo, se Deus queria lhes falar por que não usar seus discípulos em hebraico?

2) Todos os visitantes e habitantes de Jerusalém, naquele Dia de Pentecostes, conheciam o grego, que era a língua franca do mundo do Novo Testamento. O versículo 5 deste capítulo fala de prosélitos, ou seja, gentios convertidos ao judaísmo, que tinham de passar pela cerimônia de batismo, que incluía a leitura de porções da Torá, etc. Porém, além disso, conheciam a língua grega. Se Deus lhes queria falar por que não usar seus discípulos em grego?

O que queremos provar com isso é que não haveria uma alegada dificuldade de comunicação, a ponto de uma mensagem ter se ser encaminhada aos ouvintes em uma língua particular. Todos a entenderiam em, ao menos, dois idiomas conhecidos e utilizados (havia ainda outra língua falada pelo povão: o aramaico). E nem mesmo os apóstolos tinham dificuldade na evangelização, ou seja, não era necessário nenhuma intervenção sobrenatural para que se fizessem entender ao pregar o Evangelho ao mundo conhecido de então!

3) Em Éfeso havia uma comunidade evangelizada por Apolo, grande orador e expositor, mas não batizado no Espírito Santo. Doze pessoas exclamaram: Nem ouvimos dizer que existe o Espírito Santo! quando Paulo perguntou se eram batizados no Espírito Santo. Paulo orou por eles, foram batizados e tanto falavam em línguas, quanto profetizavam. Havia Deus perdido a mão? Detalhe: Todos já eram salvos (e batizados no batismo de João!) e, sem saber, já eram habitação do Espírito Santo! Apenas não haviam recebido o revestimento de poder decorrente do batismo. Esta história está no capítulo 19 do livro de Atos.

Percebam que tanto a comunidade, provavelmente composta de gentios, compreendia o Evangelho, embora ignorasse termos como o batismo no Espírito Santo, quanto compreendia o que Paulo falava! Foram batizados e falaram em outras línguas. E não há qualquer menção ao uso de um idioma diferente do grego no processo de comunicação.

4) Em Atos 10:44-47 temos outra história interessante. Gentios ouviam Pedro pregando, provavelmente em grego (língua franca, lembram?) e veio sobre eles o batismo no Espírito Santo e falavam em línguas estranhas. O texto ainda arremata: …também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo; pois os ouvíamos falando em línguas… ou seja, inequivocamente não eram línguas de homens, pois que os discípulos não precisavam ser evangelizados em qualquer outro idioma!

5) Os apóstolos singraram muitos mares em busca de almas. Paulo, sozinho, percorreu milhares de quilômetros pela Europa e Ásia, inclusive em algumas cidades mencionadas no Pentecostes. Não lhes parece estranho que nunca o texto bíblico tenha dito que pregaram em línguas? Se as línguas são idiomas, então, concluímos que em várias vezes os apóstolos e demais discípulos seriam usados neles para a pregação do Evangelho. Aonde estão as referências? Filipe, por exemplo, se dirigiu ao eunuco (At 8:29) quando este lia uma narrativa da Septuaginta ou LXX, a versão em grego do Velho Testamento. E não lhe falou em outra língua senão em grego!

6) Partamos do princípio que as línguas eram idiomas, sobrenaturalmente aprendidos por ocasião do derramamento do Espírito Santo. Ora, os discípulos alcançaram muitos povos e escreveram muitas cartas evangelísticas e exortativas. Haveria Deus falhado em usá-los de tal forma a que escrevessem no idioma destes destinatários? Não há um só manuscrito do NT (embora destinados a povos distintos) dos mais antigos e, portanto, mais próximos dos autógrafos, que esteja em outras línguas que não grego, hebraico ou aramaico! Ou Deus só lhes daria por milagre a fala naqueles estrangeiros idiomas?

7) Ouçamos Paulo em I Coríntios 14:2: “Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”. Como assim, não fala aos homens, senão a Deus, se há defensores das línguas como idiomas? Fala em espírito? Mistérios? É um versículo chave para desfazer a dúvida. Continue lendo os versículos seguintes, o contexto é claríssimo. Somente alguém mal intencionado, tentando provar uma tese inexistente, poderia afirmar que Paulo fala de línguas humanas.

8) Em I Coríntios 13:1 está a pá de cal no assunto: “Ainda que em fale as línguas dos homens e dos anjos…”.

A conclusão óbvia é que não eram línguas humanas as que os discípulos falaram em Atos. Ainda resta outra questão: Então como se explica o espanto daquelas quatorze nações ao ouvirem os discípulos falando em seus idiomas? Nada mais que a operação de outro dom. Sobrenaturalmente, o Espírito Santo usava seus discípulos naquele momento no idioma deles, através do dom de interpretação de línguas. Não apenas ouviam em grego ou hebraico, o que soaria natural para os ouvintes, como nos idiomas nativos. Aí, sim, um espantoso milagre!

Por aqui, em Paulista/PE, conta-se que um dos Lundgren, poderosos donos de tecelagens no passado, passava em frente a uma das congregações assembleianas da cidade, quando ouviu alguém lá dentro falando em alemão para ele. Acorreu ao recinto, pensando encontrar algum parente conhecido. Era um irmão sendo usado por Deus para comunicar as Boas Novas. Certamente, aquele irmão nunca mais pregou em alemão. Era um milagre.

[1] Concordância Fiel do Novo Testamento Grego-Português, Volume I, 1994, Editora Fiel

Desenvolvido por EmbedPress

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Popular Post