A doutrina da trindade não é uma verdade da teologia natural, mas sim da revelação. Strong diz: “A razão nos mostra a unidade de Deus; apenas a revelação nos mostra a Trindade de Deus”.
O mundo antigo tinha suas tríades, mas era apenas distinções místicas e teológicas em seu panteão de deuses.
Todas essas noções não tem analogia com a doutrina bíblica da Trindade; nem servem, tampouco, para explicá-la ou confirmá-la. Apesar da doutrina da trindade não poder ser descoberta pela razão humana, ela é passível de uma defesa racional agora que foi revelada.
A palavra Trindade em si não ocorre na Bíblia. Sua forma grega, Trias, parece ter sido usada primeiro por Teófilo de Antioquia (181 A.D.). E sua forma Latina, Trinitas, por Tertuliano (em torno de 220 A.D.). Entretanto, a crença na Trindade é muito mais antiga que isso, como mostraremos presentemente. Com Trindade queremos dizer que há três distinções eternas em uma essência Divina, conhecidas respectivamente como Pai, Filho e Espírito Santo. Estas três distinções são três pessoas e, assim, podemos falar da tri-personalidade de Deus.
O credo de Anastácio expressa a crença trinitariana da seguinte maneira: “Adoramos um Deus em Trindade, e Trindade em unidade, sem confundir as pessoas, sem separar substância.” A doutrina da trindade deve ser assim diferenciada tanto do triteísmo, como do sabelianismo.
As heresias mais antigas
O triteísmo1 é uma doutrina teológica que, em oposição à doutrina cristã da Trindade, defende que Deus é composto não por três Pessoas em uma só essência (como no Trinitarismo), mas por três deuses distintos, cada um com sua própria essência, substância e independência, constituindo uma espécie de politeísmo. O termo “triteísmo” é derivado das palavras gregas tri (“três”) e theos (“Deus”), significando literalmente “crença em três deuses”. Essa visão, vista como heresia por muitas igrejas, postula que Pai, Filho e Espírito Santo são três seres divinos separados, em vez de um só Deus em três pessoas.
O sabelianismo2 surgiu no terceiro século d.C. através de Sabélio, de onde nos vem o nome de sua doutrina. Ganhou seguidores em regiões como Roma, Ásia Menor, Síria e Egito por aproximadamente cem anos. Afirmava uma Trindade de revelação, mas não de natureza. Eles também afirma sobre uma Trindade modal (de onde nasceu o modalismo), que mantém que apenas três aspectos ou manifestações de uma só pessoa.
Há, também, o swedenborgianismo (ou Nova Igreja) é uma doutrina cristã baseada nas visões místicas e escritos do cientista e filósofo sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772), que descreve uma revelação espiritual contínua, focando na divindade de Jesus Cristo como o único Deus, na importância do amor ao próximo e na vida após a morte onde as pessoas vivem de acordo com suas escolhas feitas em vida, formando o céu ou inferno com base em sua atração pelo bem ou mal, e não por um julgamento externo. Ele sustenta que o Pai, o filho e o Espírito Santo são três elementos essenciais de um Deus, que compõem um, tal como o corpo, alma e espírito compõe um homem.
Deus, afirmava, como Pai é o criador e O legislador; como filho, ele é o mesmo Deus encarnado que cumpre a tarefa de Redentor; e como Espírito Santo, ele é o mesmo Deus na obra da regeneração e santificação. Isto é, ele ensinava uma Trindade modal, diferente da Trindade ontológica.
Um certo escritor Lyman Abbott fala de uma natureza tríplice de Deus da mesma maneira que uma pessoa pode ser artista, professor e amiga. Mas isto é, na realidade uma negação da doutrina da trindade, pois estas não são três distinções na essência, mas três qualidades da mesma pessoa.
A Trindade na Bíblia
Sabemos que a doutrina da trindade é um grande mistério. Algumas pessoas a consideram um quebra-cabeças intelectual e uma contradição. Como pode haver, nos perguntam, um só Deus e, ao mesmo tempo, três pessoas na divindade?
Mais Flint3 o diz muito bem: “É verdadeiramente o mistério; no entanto é um mistério que explica muitos outros mistérios, e que esclarece maravilhosamente a Deus, a natureza e o homem”. (Teorias anti-teístas, Edinburgh: Wm. Blackwood and sons, 1899), pág. 439. A opinião que se tem dessa doutrina afeta todas as outras partes da crença teológica da pessoa e da religião prática. A doutrina é, portanto, não apenas um ônus sobre nossa credulidade, mas uma necessidade prática para uma visão verdadeira do mundo e da vida.
Até a filosofia tem tido dificuldade com o conceito de Deus como uma unidade absoluta na teoria dos Eliáticos, ela acabou transformando o mundo em uma ilusão um não ser. Platão achou necessário acrescentar a ideia de uma na multiplicidade. E os estoicos e Filo contribuíram com a ideia do logos. Mas, Como já dissemos a doutrina cristã da Trindade não é, na realidade um fruto da especulação, mas da revelação. Não poderíamos saber a respeito desta auto distinção na divindade se Deus não houvesse assim se revelado.
“A Trindade, portanto, são três pessoas eternamente inter-constituídas, Inter-relacionadas, inter-existentes e, por conseguinte, inseparáveis dentro de um único ser e de uma única substância ou essência” Champlin.
“O plural, Elohim, não é sobrevivência de um estágio politeísta, mas expressa a natureza Divina na multiplicidade de suas plenitudes e perfeições, e não na unidade abstrata de seu ser” MacClaren.
“O Pai é toda a plenitude da divindade invisível, o Filho o é da divindade manifestada, e o Espírito Santo é da divindade agir diretamente sobre a criatura” Boardman
Bases bíblicas para refutação
A doutrina da trindade é revelada progressivamente nas Escrituras. O Antigo Testamento fornece uma revelação parcial quando Deus delibera: “façamos o homem à nossa imagem conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). No Salmo 45, uma pessoa chamada Deus dirige-se a outra pessoa chamada Deus: “O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a justiça e aborreces a impiedade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” (Sl 45.6,7). O filho é chamado de Deus e, por causa de seu governo justo, um outro, chamado seu Deus, o Pai (Hb 1.8,9), fala com ele e o recompensa. No Salmo 110, uma pessoa chamada Senhor se dirige a outra pessoa chamada senhor: o senhor disse ao meu senhor: assenta-te a minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés (v.1). Deus, o pai, dirige-se a Deus, o filho (Mt 22.43,44).
O Novo testamento oferece uma relação mais completa da Trindade. No início do ministério de Jesus, Deus pai fala palavras elogiosas sobre Jesus ( Deus Filho) enquanto Deus o Espírito Santo desce sobre o que está sendo batizado (Mt 3.16,17). Na conclusão do seu ministério Jesus instruiu seus discípulos a fazerem discípulos dos povos das nações, o que inclui batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). A unicidade de Deus também enfatizada ( Rm 3.30; Gl 3.20).
As três pessoas estão envolvidas na salvação desses novos discípulos de maneiras diferentes: o Pai os elege, o Espírito os santifica e Cristo, a quem eles devem obedecer, purifica-os (1Pe 1.2). Sobre esses discípulos, o apóstolo pronuncia uma benção trinitária: “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós” (2 Co 13.14).
Os três também se engajam na missão da igreja: “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos” (1 Co 12:4-6). Essa cooperação na atividade divina embasa doutrina das operações inseparáveis da Trindade. Outras passagens mostram, semelhantemente, as três pessoas Divina agindo em comum.
Por exemplo, a missão divina é apresentada como o Pai enviando seu Filho, para que pessoas que estão alienadas dele possam se tornar filhos adotivos. “…mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” ( Gl 4.4-6).
As três pessoas se envolvem inseparavelmente da missão Divina. Teologicamente, a doutrina das operações trinitárias inseparáveis emergem de três outras doutrinas:
- A unidade das três pessoas na natureza divina única indica que o Deus uno cria, salva e santifica;
- A habitação mútua das três pessoas (perichoresis) significa que, enquanto o Pai trabalha, o Filho e o Espírito, que habita nele, trabalham em conjunto com ele;
- Por compartilharem uma única natureza divina, as três pessoas têm a mesma vontade, conhecimento e poder.
Como expressou Agostinho: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, por serem indivisíveis operam de maneira indivisível.
O desenvolvimento dessa doutrina ocorreu nos primeiros séculos depois de Cristo, quando a igreja estabeleceu e expressou uma consciência trinitária. Por exemplo, a oração era trinitária, dirigida ao Pai, em nome de Jesus e por intermédio do Espírito Santo. Assim, também a adoração da igreja era dirigida a Deus pai, Deus filho e Deus Espírito Santo. Tertuliano no ano (160-240) foi o primeiro a usar o termo Trindade para se referir a unidade dos três.
Na luta contra a heresia que negava a divindade do Filho e do Espírito Santo, a igreja convocou concílios. Um dos frutos dessas assembleias gerais foi a formulação de credos que tem uma estrutura trinitária: Creio em um só Deus Pai, todo poderoso, e em um só Senhor: Jesus Cristo e no Espírito Santo. Assim a igreja confessou sua fé no Deus tri-uno e sua doutrina se tornou uma substância. A natureza divina compartilhada igualmente a três pessoas Pai, Filho e Espírito Santo, a unidade na Trindade, como afirmou Gregório de Naziazeno (330-390 a.C.): “mal consigo sou iluminado pelo esplendor dos três, assim que eu os distingo, sou levado de volta ao um”.
Um concílio da igreja, reunida 589, inseriu uma palavra no Credo de Niceia, que havia afirmado que o Espírito Santo procede do Pai, declarando que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Esta dupla procedência do Espírito é aceita pela Igreja Católica Romana e pelas igrejas protestantes, mas rejeitada pelas igrejas ortodoxas orientais.
Ev. Marcondes Lourenço
Escritor, Teólogo e Professor da EETAD
1 O triteísmo surgiu no século VI, em Alexandria, tendo como principal formulador João Filopono, um filósofo neoplatônico e teólogo cristão da corrente monofisita, que acreditava que Cristo possuía uma única natureza divina
2 Sabélio (século III) foi um teólogo cristão, provavelmente do Egito ou Líbia, que ensinou o monarquianismo modalista, ou sabelianismo, defendendo que Deus é uma única pessoa que se manifesta sucessivamente como Pai (criação), Filho (redenção) e Espírito Santo (santificação), em vez de três pessoas distintas na Trindade. Sua doutrina, que visava preservar o monoteísmo, foi considerada herética e ele foi excomungado pelo Papa Calixto I por volta de 220 d.C.
3 Thomas P. Flint é professor de filosofia e diretor do Centro de Filosofia da Religião na Universidade de Notre Dame, Estados Unidos




